De memórias e cebolas
Naquela manhã de domingo tentou lembrar de onde aprendera a ler o jornal daquela forma. Recostada na cadeira, com pernas cruzadas e braços apoiando na cadeira, lia o jornal aberto por inteiro com seus braços esticados a 280*, cada sessão que terminava era colocada sob o chão. Lia o jornal como se descascava uma cebola, seção por seção, de fora para dentro.
Por um momento lembrou das manhãs de domingo em que esperava a mãe ler todo o jornal para então poderem ir ao campo de são bento. Então metodicamente procurou recuperar aqueles dias, em que a mãe, ainda na cama, lia o jornal com a xícara de cafe e açúcar feita pelo pai, lembrou de entrar no quarto e ver os dois conversando, do café doce, da necessidade de ter o jornal organizado, da mãe ser a que lia primeiro, lembrou que a mãe lia o jornal com ele deitado na cama, entra as suas pernas.
Lembrou então do avô, de sua muleta e seus sapatos ortopédicos, do seu jeito de sentar na cadeira e da forma como deixava a perna para aliviar a dor, lembrou dele lendo jornal de braços abertos e pernas cruzadas.
Afeto em brisa.
Somos uma máquina complicada, em que os fios do presente activo se enredam na teia do passado morto, e tudo isto se cruza e entrecruza de tal maneira, em laçadas e apertos, que há momentos em que a vida cai toda sobre nós e nos deixa perplexos, confusos, e subitamente amputados do futuro. Cai a chuva, o vento desmancha a compostura árida das árvores desfolhadas – e dos tempos passados vem uma imagem perdida, ...
José Saramago “Deste Mundo e do Outro: Crónicas”

